Alfabetização: vamos criar fichas para um jogo de
memória?
Nessa atividade, as crianças comparam suas produções
com as dos colegas, colocam à prova o que sabem e constroem conhecimentos sobre
o sistema alfabético. Baixe aqui as fichas para construir o jogo da memória com
os alunos!
Os alunos da EE Professora Julieta Farão registraram o
nome de bichos nas cartas do jogo mesmo sem saber escrever convencionalmente.
Foto: Raoni Maddalena.
Os alunos da EE Professora Julieta Farão registraram o
nome de bichos nas cartas do jogo mesmo sem saber escrever convencionalmente.
Dentre os vários momentos delicados da alfabetização
inicial, existe um que merece muita atenção: a passagem da hipótese silábica
para a silábica alfabética. É a fase em que a meninada começa a abandonar a
escrita quase sempre feita só com vogais e passa a escrever acrescentando
consoantes. "A introdução das consoantes desorganiza o sistema anterior e
as crianças devem empreender a penosa tarefa de encarar os desafios de encontrar
uma nova organização", afirma a psicolinguista argentina Emilia Ferreiro
no artigo A Desestabilização das Escritas Silábicas. Nesse processo, o aluno
registra uma mesma palavra de modos distintos, em momentos diferentes, ainda em
busca de uma estabilidade para escrever.
Para compreender o fenômeno e ajudar a garotada a
progredir nas hipóteses de escrita, há diversos caminhos. Um deles é um projeto
didático que prevê a produção de fichas para um jogo da memória. A proposta -
criada pela pesquisadora Claudia Molinari, argentina especialista em
alfabetização inicial - foi realizada pela turma do 1º ano da EE Professora
Julieta Farão, na capital paulista. O tema escolhido foi animais e as crianças
tinham de escrever o nome dos que já conheciam. Ao longo desta reportagem,
apresentamos algumas produções dos alunos analisadas por Regina Scarpa,
coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita (FVC).
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Roteiro
didático: Escrita pelo aluno na alfabetização inicial.
A mesma palavra escrita duas vezes revela o que a
turma sabe.
Para realizar a atividade, selecione um tema e prepare
as cartas. Cada par precisa ter a foto de um bicho e um espaço para o nome
dele. Depois, compartilhe com a turma o objetivo: construir um jogo para
brincar com os colegas.
Para começar, distribua uma ficha para cada aluno,
reservando o par correspondente para ser entregue depois. É importante planejar
qual será dada para cada um, levando em conta suas hipóteses de escrita.
Afinal, os desafios contidos em escrever SAPO e CACHORRO, por exemplo, são
distintos. Uma vez que todos tiverem terminado, peça que leiam em voz alta o
que escreveram. Entregue outras fichas para serem preenchidas e repita o
processo de leitura. Em seguida, recolha os trabalhos.
Fichas do jogo da memória dos animais.
Clique para imprimir as fichas e proponha à turma a
construção de um jogo da memória com os nomes dos animais.
No dia seguinte, cada criança recebe as fichas que
fazem par com as que já escreveram e deve escrever o nome do animal
correspondente novamente - sem consultar as anteriores. Se elas estivessem
disponíveis, muitos estudantes replicariam o que tinham escrito antes. As
intervenções que você pode fazer para ajudá-los nesse momento são as mesmas
usadas em outras situações de produção escrita com foco na alfabetização:
incentivar a busca por informações sobre o sistema de escrita em fontes
conhecidas (lista de nomes da turma, por exemplo) e trocar ideias com os
colegas. O esperado é que a maioria dos pares de palavras seja grafada de forma
total ou parcialmente diferente.
O fato de um aluno escrever PICO na primeira carta e
PIAO na segunda (ou vice-versa) para PELICANO, por exemplo, revela que ele
conhece diferentes letras e os sons correspondentes aos segmentos silábicos -
um bom sinal. Porém deixa claro também os dilemas sobre quantas e quais letras
usar e em que ordem colocá-las. Esse fenômeno recebe o nome de alternância
grafofônica: quando se reveza o uso de duas letras para representar uma emissão
sonora (no exemplo acima, C e A para CA). "Nesse cenário é interessante
perguntar às crianças se as duas opções são pertinentes para a escrita da
palavra", recomenda Telma Weisz, pesquisadora em alfabetização e
supervisora pedagógica pelo Programa Ler e Escrever da Secretaria de Educação
do Estado de São Paulo. Muitas vezes, elas respondem que sim e acrescentam C à
PIAO ou A à PICO. Se não o fazem na ordem correta, o resultado é um caso de
desordem com pertinência.
Não se esqueça de oferecer também situações que façam
a criança refletir sobre a escrita para ter a chance de avançar. Uma dessas
oportunidades é a revisão.
Segundo Claudia, a necessidade de ter uma versão
definitiva das fichas justifica a etapa de revisão. "A tarefa faz sentido
mesmo se os cartões tiverem escritas idênticas, porém equivocadas. Elas podem
ser reformuladas e melhoradas", diz. Os alunos, com a sua ajuda, colocam à
prova o que sabem, acrescentando, omitindo ou trocando letras de lugar.
Referências :
Revista Nova Escola
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